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A Verdadeira História da Barra Acervo documental do caso do Banco de Crédito Móvel
Pergunta 01

De quem era a terra?

A pergunta parece antiga e é a mais atual do caso. Toda a discussão de hoje — a ação das devolutas, a desapropriação, as usucapiões — depende de saber se aquelas terras já eram particulares antes de o Estado chegar. A resposta não está em livro de história: está em escritura, e cada elo tem a sua.

O elo mais antigo

A terra sai do domínio público em 1594

A carta de sesmaria da Tiguga é o ato que transfere a terra da Coroa para um particular. É o ponto em que a área deixa de ser devoluta — e é exatamente esse ponto que a tese contrária precisa negar para chegar aonde quer chegar.

De lá em diante a titularidade passa ao Mosteiro de São Bento, que a mantém por mais de dois séculos: o testamento de D. Vitória de Sá, em 1667, e o Registro do Vigário, em 1856, documentam a continuidade. Não há, no acervo, um único ato devolvendo essas terras ao poder público.

Os atos

Cada linha abre a ficha do ato, com a fonte e o selo.

  1. 1594 CARTA DE SESMARIA DA TIGUGA 09/09/1594 · Salvador Correia de Sá concede a Gonçalo Correia de Sá e Martim de Sá · é o ato que tira a terra da condição de devoluta Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  2. 30 de janeiro de 1667 TESTAMENTO DE D. VITÓRIA DE SÁ Lega as três fazendas ao Mosteiro de São Bento · fls. 1.551/1.558 · "os herdei de meus Paes e Avós" Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  3. 23 de janeiro de 1847 O contrato de Maria Magdalena A arrendatária assina com uma cruz · não sabia ler nem escrever Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  4. 25 de abril de 1856 REGISTRO DO VIGÁRIO O Mosteiro declara as terras nas freguesias de Jacarepaguá E GUARATIBA, "por titulos legitimos" · Arquivo Nacional, fls. 17 Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
1891

Duas escrituras em vinte e nove dias

Em 5 de janeiro de 1891 o Mosteiro vende Camorim, Vargem Pequena e Vargem Grande à Companhia Engenho Central de Jacarepaguá, com licença do Governo e preço em apólices do Tesouro. Em 3 de fevereiro a Companhia vende ao Banco de Crédito Móvel — mil contos de réis pagos no ato, com cláusula constituti, que transfere domínio e posse na mesma escritura.

Em 17 de dezembro de 1892 o título vai a registro: a transcrição 14.746, livro 3-C, fls. 82, do 1.º Ofício. Ela descreve terras que “correm desde o rio Pavuna até o mar e pela costa até junto da Guaratiba”. E nunca foi cancelada.

A aquisição

  1. ≈ 29 de novembro de 1890 AUTORIZAÇÃO DA VENDA PELO GOVERNO Só com licença do Governo · atribuída ao Ministério do Interior · o ato não foi localizado Selo de prova C — Fonte pública. Imprensa, Diário Oficial, acervo público. Sempre com a fonte à vista.
  2. 5 de janeiro de 1891 O MOSTEIRO VENDE À CECJ São Bento vende Camorim, Vargem Pequena e Vargem Grande por 250:000$000 Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  3. 3 de fevereiro de 1891 A CECJ VENDE AO BANCO Mil contos de réis pagos no ato · cláusula constituti · domínio e posse transferidos · imposto de transmissão de 60:000$000 pago em 19/01/1891 Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  4. 17 de dezembro de 1892 Transcrição 14.746 1.º Ofício · livro 3C fls. 82 · jamais cancelada · livro 3-C fls. 82 · freguesia do imóvel: Jacarepaguá E Guaratiba Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
A posse

Entre um dono e o outro não houve um dia de vazio

Título sem posse é papel. Aqui os dois andam juntos: o Livro B de Arrendamentos do Mosteiro encerra em 1890; em 1893 o Banco chama os mesmos arrendatários; os recibos de 1901 e 1911 são pagos a ele.

Quem paga arrendamento reconhece dono. É posse direta derivada — o oposto do que a usucapião exige.

A cadeia de posse

  1. 1890 Livro B de Arrendamentos
    do Mosteiro
    A escrituração dos arrendatários · encerra em 1890
    Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  2. 1893 Chamamento dos Arrendatários O Banco chama os arrendatários do Mosteiro · e eles atendem Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  3. 1901 Recibo de arrendamento · Camorim Pago ao Banco · posse direta derivada, nunca ad usucapionem · de 17/02/1901 · arrendatário Francisco Lopes de Mello · 10$000 anuais · papel timbrado da Rua da Alfândega n. 11 Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  4. 1911 Recibo de arrendamento · Camorim Dez anos depois · e ainda ao Banco · de 15/12/1911 Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  5. 1921 Balancete com a relação de arrendatários O Banco ainda administrando o arrendamento, trinta anos depois da compra Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
A confirmação

Quem confirmou o domínio foi o próprio poder público

Em 1914 a União compra terras do Banco e registra a aquisição. A planta oficial da Repartição de Águas, de 1915, grafa o que comprou: “terras pertencentes á União adquiridas ao Banco de Credito Movel”. Não há reconhecimento de domínio mais forte do que o do comprador.

E a tese de que aquelas terras seriam públicas já foi a juízo — e perdeu. Em 1933 e 1934 o Judiciário reconheceu que a área “foi, desde longa data, propriedade do Mosteiro… e passou… ao réu”.

A confirmação pública e judicial

  1. 16 de abril de 1914 🔑 A UNIÃO COMPRA DO BANCO E REGISTRA Livro 3-AA fls. 7 n.º 43.487 · escritura de 15/04/1914 do 11.º Ofício · o poder público comprou, não alegou domínio Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  2. 1915 PLANTA OFICIAL DA REPARTIÇÃO DE ÁGUAS Desenho n.º 734 · 1:5.000 · "Terras pertencentes á União adquiridas ao Banco de Credito Movel" Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  3. 1932 A tese pública derrotada em juízo · 1.ª vez Com perícia · a dominialidade já foi submetida a exame duas vezes Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  4. 1933 PLANTA DAS TERRAS DO BANCO Secção Technica · 1:25.000 · duas folhas · a cartela diz "ARCHIVADA NA PREFEITURA" · ⛔ documento de parte, não é fonte de perímetro Selo de prova A — Lido no original. Documento aberto e conferido por nós. Só este selo sustenta uma afirmação do site.
  5. 14 de agosto de 1933 SENTENÇA DO RIO DAS PIABAS improcedente · "foi, desde longa data, propriedade do Mosteiro… e passou… ao réu" Selo de prova C — Fonte pública. Imprensa, Diário Oficial, acervo público. Sempre com a fonte à vista.
  6. 24 de agosto de 1934 ACÓRDÃO DA 4.ª CÂMARA · O DOMÍNIO EM JUÍZO Após a perícia · confirma a sentença e reconhece o domínio dentro de Guaratiba · Revista Cível 658 Selo de prova C — Fonte pública. Imprensa, Diário Oficial, acervo público. Sempre com a fonte à vista.
E o morador
Nada nesta página discute a casa de quem mora na Barra, no Recreio ou em Jacarepaguá. Discute-se a origem da cadeia — e é justamente quem comprou de boa-fé quem mais precisa que ela fique clara. Ver a página de perguntas frequentes

E a minha escritura? →

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